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Grafite nos tapumes da Praça Senhor dos Passos conta vida dos moradores de rua e relembra chacina

Na tarde da última quarta-feira (31), os tapumes que escondem a reforma da Praça Senhor dos Passos, estavam diferentes do branco habitual: as frases grafitadas dos moradores de rua que vivem na região, mostram que o primeiro direito humano é a fala.

Além disso, o movimento também mostra que por trás do tapume está registrado para sempre na rigidez da pedra a violência policial da Capital, no episódio que ficou conhecido como “Chacina do Beco do Candeeiro”. Debaixo de uma lona preta, a escultura dos três adolescentes mortos permanece, enquanto a obra de revitalização da praça acontece.

A ação foi organizada pela Archaeo, um programa de extensão de educação patrimonial. A pesquisadora Gabriela Rangel relata que passou três dias coletando histórias dos moradores do Morro da Luz. Ela faz parte do projeto “Psicanálise das Ruas”, que ouve pessoas em condição de rua há dois anos. Mesmo sob chuva fina, o trabalho foi concluído às 16h. O movimento visava registrar e expor para a população o vocabulário e a vida de quem mora nas ruas.

“As frases escritas foram ditas por eles. São parte de depoimentos do vocabulário deles, reconhecendo e pensando que esse mesmo vocabulário também é patrimônio, numa dimensão viva e contemporânea, que está acontecendo ai todo dia”, explica. Algumas das frases, por exemplo, revelam quando essas pessoas foram pra rua.

“A língua é o nosso maior patrimônio, e se você parar pra conversar com um morador de rua algum dia, você só vai entender 50% do que ele está falando. Porque eles falam quase uma outra língua, são gírias. É um jeito que eles acharam de se comunicar, de pensar a condição deles na cidade. É uma expressão extremamente rica, então nossa ideia foi buscar essa expressão para mostrar pra cidade, fazer essa mediação entre moradores de rua e a cidade”.

Daniel Victor Lima está de camisa social e sapatos, e ouvia e participava da conversa. Ele tem 40 anos, e diz que está há exatos 40 na rua. Ele observa sua condição: “eu posso ter meus defeitos, mas tenho respeito ainda. Eu sou diferente, como meus amigos aqui da rua, mas tenho conhecimento. Sei trocar ideia, converso, brinco. Tenho família aqui e ali, e não gosto de me ver nessa situação”.

A pesquisadora conta que a procura pelo contato com os moradores do local está relacionada também com a escultura do artista Jonas Corrêa, que relembra os três adolescentes de 13, 15 e 16 anos, que foram assassinados por um policial militar, em julho de 1998.

Recentemente, a Prefeitura se envolveu em uma polêmica ao lançar a readequação das praças do Centro Histórico, em janeiro. No caso da Senhor dos Passos, a escultura seria retirada do local por causa das obras.

“É um memorial. O Jonas Corrêa, o artista que fez essa obra, ele a fez logo depois da chacina e colocou ai, para que nunca fosse esquecida. Então esse movimento vem ao centro, que é uma praça e o local que eles tradicionalmente ocupam, são sobreviventes da chacina que estão no Morro da Luz hoje, são pessoas que tem 30 anos e na época tinha 10. São pessoas que tiveram contato com o Indinho, Nando e o Baby, que estão ali retratados”.

Daniel comenta sobre o respeito que a escultura pede. De acordo com ele, as mães das vítimas ou outras pessoas ainda depositam velas ali. “Quando uma pessoa encosta o pé ali, eu venho e falo ‘que que cê ta encostado ai cara?’. Essa estátua significa vidas que já foram, é da família, que sempre vem velar pelos seus filhos”, disse.

O assunto toca também na Ilha da Banana, em que casarões abandonados, ocupados pelos moradores de rua, foram derrubados e agora permanecem em escombros. Quem ali estava, agora vive no Morro da Luz. Ironicamente, um dos homens ouvidos por Gabriela disse “tira nós do casarão, nós vai pros casarinho”, que foi escrito no tapume.

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