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Projeto da Policia Militar resgata dignidade de crianças em Poconé

A condição de vulnerabilidade, o desvio comportamental e a situação de risco de muitas crianças na faixa etária de 7 a 12 anos, tem sido motivo de muita preocupação por parte da sociedade poconeana. Por essa razão, e com o intuito de reverter tal quadro, a Sociedade Organizada Amigos de Poconé – Soape –, sob a presidência do Frei Afonso Siscari, a Policia Militar, na pessoa do Major Hender Ulisses da Silva, e parceiros do comércio, indústria, escolas e instituições, resolveram desenvolver um projeto para atender essas crianças.

Todo o processo começou em dezembro de 2016, sendo efetivado a partir do mês de março/2017, quando ganhou corpo e notoriedade na comunidade, atendendo, de imediato, 60 crianças. O projeto oferece condições para que as crianças aprendam a melhor se relacionar com suas famílias, em primeiro lugar e, depois, com a sociedade organizada, através da disciplina e do conhecimento sociocultural.

Sim, exatamente isso, visto que essas crianças estavam vivendo em situação de risco, sem nenhuma perspectiva de futuro, em lares desestruturados. Ou seja, em ambiente desfavorável a formação de sua personalidade e de seu caráter, o que refletia no ambiente escolar, pois eram consideradas problemáticas.

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Segundo Frei Afonso, essa situação gerava intranquilidade e insegurança, tornando a cidade um foco de violência, cujo fruto estava exatamente no cerne familiar, quando então crianças em estado de risco eram cooptadas para a delinquência ou para o tráfico, aumentando o temor na sociedade. “Na verdade, o projeto visa trabalhar as crianças mais problemáticas, indisciplinadas, sem respeito, e cujas famílias estão desestruturadas”, disse Frei Afonso, lembrando que desde o advento da Policia Mirim, os avanços têm sido surpreendentes.

Outro ponto destacado por Frei Afonso é quanto ao sistema desenvolvido no projeto, que envolve disciplina e cidadania (desenvolvido pela Policia Militar), passando pela religião (através da catequese, respeitando-se as confissões religiosas), pelo reforço escolar (envolvendo as disciplinas de Matemática, Língua Portuguesa e Literatura), e atividades esportivas e recreativas. Ações essas que não têm nenhum apoio governamental, mas somente da sociedade local, através de doações e parcerias com profissionais que se doam ao projeto.

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Major Hender Ulisses: “Houve uma mudança radical na vida das crianças e de suas famílias, e os mesmos que eram considerados problemas, hoje são exemplos nas comunidades onde moram e nas escolas onde estudam”, explicou o Major Hender, lembrando que o projeto se tornou referência na cidade, sendo procurado por muitos outros pais. Outro aspecto citado pelo Major, é que ao ser acolhida no projeto, essa criança deixa de ser alvo de traficantes e bandidos que estão a espreita para adota-la para o tráfico.

Questionado do por que desenvolver tal projeto em Poconé, Major Hender confidenciou ser “herança de família”. Ou seja, seu pai era Praça (soldado) em Porto Murtinho/MS, e mantinha 180 crianças em um projeto nos mesmo moldes, sem nenhum apoio do governo e com parcos recursos pessoais para mantê-los. Hoje, elas se transformaram em grandes homens e honrados pais de família. “Portanto, entendo que como oficial, hoje posso fazer algo pela sociedade”, explicou.

Os monitores

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Cabo Leonardo: As ações são ainda mais abrangentes, conforme explicou o Cabo PM Leonardo, formado em Ciências Biológicas, e que está envolvido diretamente no Polícia Mirim. Para ele, o mais importante tem sido os resultados alcançados, mesmo nesse pequeno espaço de tempo, quando as crianças começam a demonstrar mudanças profundas em seu caráter, fruto das ações desenvolvidas no projeto.

“Não dá para trabalhar a questão do combate à violência isoladamente sem se combater a raiz do mal”, disse Leonardo, lembrando que a prevenção é o princípio de todo o processo que visa transformar a sociedade. 

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Maria de Lourdes assis: Isso envolve inclusive, a participação dos pais e familiares, que periodicamente são chamados para se entrosarem mais ao projeto e à vida de seus filhos. Um trabalho individual, caso a caso, mas com resultados coletivos.

Aliás, essa ideia também é compartilhada pela enfermeira aposentada Maria de Lourdes Assis, colaboradora, que abraçou o projeto para ajudar crianças que estavam em situação de risco e que apresentavam problemas de rendimento nas escolas. “Nosso objetivo é visitar frequentemente as escolas e verificar quais crianças estão com mais problemas de relacionamento familiar ou escolar”, explicou, acrescentando que “temos que estar atentos e trabalhar mais as famílias, de forma a criar um ambiente favorável ao desenvolvimento das crianças com responsabilidade e respeito”.

Os alunos

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P. Rodrigues: Conversamos com as crianças envolvidas no projeto e pudemos sentir que elas estão muito contentes em estar ali. Não se vê, de forma alguma, nenhum resquício de que estejam ali forçadamente pelas escolas ou pelas famílias. É realmente algo espontâneo e de livre vontade. Inclusive, todas foram unanimes em afirmar que gostam dos monitores e dos colaboradores que ensinam a eles.

Para P. Rodrigues (8), o Policia Mirim tem um sabor diferente, pois “vim para ser um bom aluno”. Ele explicou que gosta muito de estudar Matemática e ali se sente bem tratado e amado, além de entender ser a Policia Militar uma instituição que defende as pessoas de bem, ajudando-as a ter uma vida mais tranquila e sem problemas.

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Fabine Oliveira: Já Fabine Oliveira (10), disse estar muito bem no projeto. Ela reconheceu que era muita ‘ativa’ (bagunceira), e ali aprendeu a “ter limites, disciplina e respeito pelas pessoas.

 

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Bruna Fernanda: Ela explicou também que dentre as atividades do projeto, gosta mais é de estudar Matemática e fazer natação.

No caso de Bruna Fernanda Souza (10), ela nos contou que sua mãe procurou o Policia Mirim porque ela tinha dificuldades de relacionamento em casa e na escola. “O projeto melhorou a minha vida”, disse Fernanda, explicando que ali aprendeu a respeitar e a não xingar os outros. Mudei muito e hoje posso conviver melhor com as pessoas. Sobre o que mais gosta no projeto, confidenciou ser estudar Matemática e tomar banho na piscina.

Orgulho de mãe

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Carmosina Soares : O orgulho de Carmosina Soares Pereira, mãe do aluno P. Rodrigues, pode-se ver estampado em seu rosto. Para ela, o projeto veio em boa hora e tem contribuído substancialmente para a evolução de seu filho. “Hoje, vejo meu filho mais compenetrado, consciente, respeitoso e muito mais amigável”, explicou, lembrando que no passado seu filho era muito arteiro e dava trabalho.

A mãe conta que através do Policia Mirim seu filho passou a ter mais responsabilidade, tanto que “não falta um dia sequer, e se há algum problema, ele fica muito triste e chega a chorar de não poder ir para o projeto”. E finalizou dizendo que reconhece os monitores como “verdadeiros guerreiros, pois estão contribuindo para tirar crianças das ruas”.

Escolas apoiam Polícia Mirim

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Dulcelina Aparecida : O projeto Policia Mirim cresceu tanto em Poconé que não se fala de outra coisa. Para a coordenadora da Escola Municipal João Godofredo da Silva, que tem alguns alunos no projeto, os resultados obtidos são de causar inveja ao melhor dos educadores.

“Trata-se de uma ação que não envolve somente o aluno, mas toda a família, procurando solucionar as questões primordiais que estejam sufocando ou prejudicando as crianças e seus familiares. Desde que o projeto começou tenho visto uma grande mudança nos alunos de nossa escola. Hoje são diferentes, educados, atenciosos, enfim, são outras crianças”.

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Rosângela Aparecida de Oliveira explicou, lembrando que o projeto ensinou as crianças a terem limites e maior respeito pelos professores e por todos os que estão em sua volta, gerando neles o sentimento de serem melhores.

Quem também reconhece a importância do projeto para a sociedade poconeana é a diretora da Escola Estadual Marechal Rondon, Rosangela Aparecida de Oliveira. Ela disse que quem entrou para o projeto desenvolveu regras e limites, mudou seu comportamento e teve uma transformação de 80 por cento em suas ações. “Realmente é um projeto de suma importância para as crianças e suas famílias”, lembrou, finalizando que “gostaria que o projeto fosse ampliado, especialmente em minha escola”, reconhecendo que seus monitores se esforçam para fazer o melhor para o bem das crianças, mas nem sempre isso é possível.

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