Os bastidores da relação entre coronéis da Policia Militar e integrantes do PCC em São Paulo
Fonte: Da Redação 26/07/2026 ás 23:09:05 123 visualizações

Mensagens obtidas pela Polícia Federal e analisadas pelo Ministério Público de São Paulo revelam uma série de contatos entre oficiais da Polícia Militar, incluindo coronéis da reserva, e investigados por suposta atuação em esquemas ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC). As conversas incluem convites para viagens, hospedagens em colônias de férias da corporação, pedidos de favores e indícios de pagamentos de propina, segundo os investigadores.

O material foi encontrado pela Polícia Federal durante uma investigação sobre doleiros. Ao identificar possíveis vínculos entre policiais e suspeitos ligados à facção criminosa, a PF encaminhou as informações ao Ministério Público paulista, que aprofundou as apurações.

No centro da investigação está o coronel da reserva Luiz Carlos Pereira Martins, aposentado da PM desde 2019. De acordo com o relatório do MP, ele mantinha contato frequente com Cleber Azevedo dos Santos e Robson Martins de Souza, investigados por envolvimento com o PCC. Os promotores afirmam que o oficial seria um "grande amigo" dos dois e apontam indícios de que ele atuava para facilitar o acesso do grupo a integrantes da corporação.

Uma das conversas analisadas ocorreu em setembro de 2020, em um grupo de mensagens chamado "Viajar Gente Linda". Nela, o coronel convida participantes para uma estadia na colônia de férias de oficiais da PM em Campos do Jordão. O convite foi aceito por Cleber Azevedo dos Santos, que, segundo a investigação, já era alvo de apurações por suspeita de ligação com a facção criminosa.

Dois anos depois, em setembro de 2022, novas mensagens mostram conversas entre Pereira Martins e Robson Martins de Souza sobre uma reserva na colônia de férias de Boraceia, no litoral paulista. Segundo o MP, os diálogos reforçam a proximidade entre os investigados e o oficial da reserva.

Indícios de influência dentro da corporação

Em outra conversa, de 2023, Cleber envia ao coronel a foto de um oficial da PM e pergunta se ele o conhecia. Pereira Martins responde que o policial era seu amigo e se oferece para fazer contato diretamente. Para os investigadores, a mensagem reforça a suspeita de que o coronel utilizava sua rede de relacionamentos na corporação em benefício do grupo investigado.

Ainda segundo a apuração, Cleber é apontado como um dos principais operadores financeiros do esquema, mantendo contato tanto com integrantes da cúpula do PCC quanto com policiais militares. Já Robson seria responsável pela articulação de pagamentos de propina a agentes públicos. Ambos foram presos nesta semana em operação das autoridades.

Dinheiro e suspeita de propina

Uma das mensagens consideradas mais relevantes pelos investigadores foi registrada em outubro de 2022. Após uma conversa sobre coronéis da PM, um integrante do grupo envia a foto de uma sacola com dinheiro e informa o valor de R$ 270 mil. A Polícia Federal avalia a hipótese de que os recursos pudessem ser destinados ao coronel Pereira Martins e ao coronel José Augusto Coutinho.

A investigação também aponta que parte dos recursos teria origem em um esquema de lavagem de dinheiro que envolvia comerciantes da região do Brás, na capital paulista. Segundo o MP, valores provenientes do tráfico de drogas, operações com criptomoedas e golpes seriam transferidos por meios digitais e posteriormente sacados em espécie para dar aparência de legalidade aos recursos.

Coronel Coutinho também é citado

O coronel José Augusto Coutinho, ex-comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo e ex-comandante da Rota, também aparece nas investigações. Em mensagens analisadas pela PF, suspeitos fazem referências ao oficial. Os investigadores apontam ainda uma possível ligação entre Coutinho e um doleiro conhecido como Amin, atualmente foragido.

A defesa de Coutinho afirmou que as menções ao coronel são "meramente incidentais e indiretas" e que não há atribuição de qualquer conduta ilícita ao oficial. Segundo os advogados, a inocência dele será comprovada ao longo das investigações.

Além do caso atual, Coutinho já era investigado pela Corregedoria da PM em outros procedimentos relacionados ao PCC. Um deles apura a suspeita de que policiais tenham prestado segurança privada a uma empresa de ônibus ligada à facção. Outro investiga um possível vazamento de informações que teria permitido a fuga de Marcos Roberto de Almeida, o Tuta, apontado como uma das principais lideranças da organização criminosa fora dos presídios.

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